Comecei a escrever este texto pensando em como a visão sobre o corpo, especialmente o feminino, mudou ao longo da história. No período Paleolítico, tínhamos retratações divinas do corpo da mulher; ele era associado à fertilidade, à abundância e à própria vida. Hoje, a mera exposição desse mesmo corpo torna-se motivo de julgamento e vergonha. Mas precisei recomeçar tudo após ver a performance da Anitta em 'Divino Sexual'.
Mais do que a performance em si, o que me incomodou foram os comentários do tipo: 'Pensei que essa nova fase era para se conectar mais com o espiritual'. Isso me gerou um questionamento: por que sensualidade, sexo e nudez são vistos como o oposto da espiritualidade?
Para proferir um julgamento moral sobre o que é espiritual ou não, devemos decidir de qual egrégora estamos falando. Quando voltamos um pouco no tempo, podemos citar diversas Deusas e rituais que, por si só, validam o desejo artístico de ser erótico. No 'Hino do Casamento Sagrado de Inanna e Dumuzi', há trechos como: 'Minha vulva, este terreno alto e bem irrigado / Para mim, a virgem, quem a arará?'. Se ela não está pedindo para alguém desaguar nela e ela oceanar, não sei do que se trata.
Eu poderia dissertar sobre o Sacerdócio Sexual, onde o devoto experimentava o toque da deusa através do corpo da sacerdotisa e como, nos rituais da Mesopotâmia, se a deusa (através da sacerdotisa) não ficasse satisfeita, o reinado perdia sua legitimidade e a terra se tornaria estéril. Mas o julgamento vem de uma origem bem específica: a das religiões monoteístas, como o cristianismo predominante no Brasil. Nelas, o sexo não é um tabu absoluto, mas é retraído e limitado a regras rígidas: precisa acontecer após o casamento e exige-se que a mulher seja virgem (mais uma vez sendo o centro da expectativa).
Então, ocorre uma quebra de padrão quando a mulher não se limita a um único parceiro e torna-se ainda pior quando expõe como gosta que o ato seja feito. Por mais que você não ache que nenhuma dessas regras se aplique a sua crítica, mesmo assim é automaticamente gerado um julgamento quando alguém é tão explícito. É desconfortável, não é? Então você descobriu o motivo desse tipo de performance existir, pois se a arte lhe causou algum sentimento, ela cumpriu o seu objetivo.
Lembro do episódio em que Madonna, em 1990, foi ameaçada de prisão se realizasse a performance de masturbação no palco. Ela não apenas se recusou a alterar a apresentação, como declarou:
Isso aconteceu há mais de três décadas e, ainda assim, presenciamos a mesma recriminação. Algo que, convenhamos, não se aplica a shows de homens. Recentemente, em uma interação comum em seus shows, o cantor Usher chamou uma fã ao palco para se apresentar de forma mais íntima; embora a mulher aparentasse estar desconfortável, não vi comentários questionando se ele estava sendo 'apelativo' ou 'qual era a necessidade daquilo'. O foco foi apenas a reação dela. Sabe, a mulher é sempre o ponto de interrogação.
Nós, enquanto artistas, não temos permissão para ser vulgar? Não podemos romper com a visão masculina sobre o nosso próprio corpo? A mulher é parte do ato sexual; temos desejos, fetiches e necessidades. Se o sexo é o canal pelo qual a própria existência humana se perpetua, por que falar sobre o nosso prazer ainda é tido como tabu?
Diante dessa eterna dúvida, faço das palavras de Elis Regina em 1975 as minhas
